A disputa pelo controle da Braskem entrou em uma fase decisiva. A IG4 Capital, gestora de private equity, apresentou uma proposta ousada para assumir a petroquímica: consolidar as dívidas da Novonor — antiga Odebrecht — e convertê-las em participação acionária. Essa troca de dívida por ações daria à IG4 acesso ao capital da Braskem sem a necessidade de resolver, de imediato, os pesados passivos ambientais da companhia.
O plano inclui um período de exclusividade de 90 dias para negociações com Novonor e Petrobras, que já se mostraram abertas à proposta. A manobra, contudo, levanta questionamentos sobre os impactos financeiros e a capacidade da empresa de sustentar seus compromissos de longo prazo.
Fragilidade financeira exposta
A situação da Braskem é delicada. O EBITDA recorrente caiu 67% no 2º trimestre de 2025, somando apenas US$ 74 milhões, reflexo da queda nos spreads de PE e PVC. A relação dívida/EBITDA está em 7,92 vezes, com reservas de caixa limitadas a US$ 1,7 bilhão, o que representa queda de 40% em relação a 2024.
Para completar, a queima de caixa trimestral atinge R$ 2,7 bilhões. Os títulos de dívida da companhia já são negociados a rendimento de 15,7% e as notas com vencimento em 2030 circulam a 74 centavos por dólar, reforçando a percepção de risco elevado.
Passivos ambientais e batalha judicial
Um dos principais obstáculos à transação é a herança ambiental. O desastre de subsidência em Maceió já consumiu quase R$ 18 bilhões em indenizações e recuperação ambiental, além de novos processos judiciais, incluindo uma ação de R$ 717 milhões movida pela Defensoria Pública de Alagoas.
Enquanto a IG4 busca adiar a resolução desses custos, o concorrente Nelson Tanure insiste em condicioná-la à solução definitiva dos passivos antes de qualquer acordo. Essa divergência cria um impasse entre investidores e reguladores, já que não há precedente no Brasil para uma reestruturação desse porte no setor petroquímico.
Reguladores divididos e incertezas no mercado
O ambiente regulatório brasileiro adiciona complexidade. Diferente do caso Samarco, que contou com protocolos de segurança e renegociação judicial de dívidas, a Braskem não tem modelo a seguir. Bancos e credores, incluindo o BNDES, veem com cautela a proposta de Tanure, mas também questionam a sustentabilidade do plano da IG4.
Além disso, há resistência entre stakeholders que defendem a manutenção dos ativos da Braskem nos EUA, considerados estratégicos para sua expansão global. Tanto IG4 quanto Tanure rejeitam vendas parciais sem um plano estratégico de longo prazo.
A promessa dos petroquímicos verdes
Apesar dos riscos, o plano da IG4 pode abrir caminho para um futuro mais sustentável. A Braskem tem investido em resinas de base biológica, com vendas da linha I’m GreenT crescendo 26% no último ano. Uma reestruturação poderia acelerar essa transição, ainda mais com o potencial apoio estratégico da Petrobras, interessada em ampliar sua influência sobre a empresa.
No entanto, a capacidade da Braskem de equilibrar investimentos em inovação com as obrigações ambientais permanece a grande incógnita. Caso falhe, credores podem enfrentar cortes em dívidas e investidores, novas perdas.
Entre divisor de águas e aposta arriscada
A ofensiva da IG4 Capital pode redefinir o futuro da maior petroquímica do Brasil, mas o resultado ainda é incerto. Se bem-sucedida, a estratégia de troca de dívida pode estabilizar o balanço da Braskem e acelerar sua transição para produtos verdes. Se fracassar, pode se tornar um alerta de como a combinação entre fragilidade financeira e passivos ambientais pode comprometer o destino de gigantes industriais.
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