Personagem icônica de Veríssimo, ‘Velhinha de Taubaté’ surgiu na ditadura e falava de política com humor; relembre


Morre, em Porto Alegre, aos 88 anos, o escritor Luís Fernando Veríssimo
Um dos cronistas mais famosos e bem-humorados do Brasil, Luís Fernando Veríssimo fez obras que atravessaram décadas e marcaram gerações — com publicações em livros, quadrinhos e jornais. Uma das personagens mais memoráveis dele leva o nome da segunda maior cidade do Vale do Paraíba: Taubaté (SP).
O escritor morreu neste sábado (30), aos 88 anos. Ele estava internado na UTI de um hospital de Porto Alegre (RS) desde o início do mês, e faleceu vítima de complicações de uma pneumonia, segundo o boletim médico – leia mais clicando aqui.
Entre seus personagens mais marcantes estão:
Ed Mort, detetive particular atrapalhado e cínico;
As Cobras, dupla irônica que filosofava sobre política e comportamento;
Família Brasil, sátira da classe média;
Analista de Bagé, psicanalista gaúcho com humor ácido;
E, claro, a Velhinha de Taubaté, personagem que se tornou ícone nacional.
A Velhinha de Taubaté, personagem criada por Verissimo em homenagem ao Vale do Paraíba
Foto 1: Reprodução/Eduardo Baptistão / Foto 2: Reprodução/Unesp
Criada em uma crônica em 1983, durante a ditadura militar no país, a Velhinha era apresentada como “a última pessoa no Brasil que ainda acreditava no governo”.
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Sentada diante da televisão, ela acompanhava governos desde João Figueiredo, tornando-se metáfora da ingenuidade política e, ao mesmo tempo, uma homenagem divertida a Taubaté (SP), cidade com uma forte veia artística no Vale do Paraíba — berço de nomes como Monteiro Lobato, Mazzaropi e Hebe, por exemplo.
A repercussão foi tão grande que Veríssimo retomou a personagem diversas vezes ao longo dos anos 80, 90 e 2000.
E foi em 2005, durante o escândalo do Mensalão, que o escritor publicou o texto em que “matava” a Velhinha, ironizando a descrença diante das denúncias de corrupção e mantendo o humor característico de suas crônicas.
Em choque com os escândalos na política brasileira, a personagem faleceu enquanto assistia à televisão, sob “circunstâncias misteriosas”, segundo o escritor. A publicação foi feita no jornal Estadão — confira a íntegra abaixo.
Em entrevista em agosto de 2005, o escritor classificou a morte da velhinha como algo simbólico para o momento que o Brasil vivia.
“Eu acho que a morte dela agora simboliza de certa maneira esse sentimento que tem no país todo de não acreditar em mais nada, não acreditar mais em político, em partido nenhum, em político nenhum, em política nenhuma”, afirmou na época.
Velhinha de Taubaté (1915 — 2005)
Reprodução/Estadão
Velhinha de Taubaté (1915 — 2005)
“Morreu no último dia 19, aos 90 anos de idade, de causa ignorada, a paulista conhecida como ‘a Velhinha de Taubaté’, que se tornou uma celebridade nacional há alguns anos por ser a última pessoa no Brasil que ainda acreditava no governo.
O fenômeno, que veio a público durante o governo Figueiredo, o último do ciclo dos generais, levou multidões a Taubaté e transformou a Velhinha numa das maiores atrações turísticas do estado.
Além de estandes de tiro ao alvo e de venda de estatuetas da Velhinha e de uma roda-gigante, ergueram-se tendas para vender caldo de cana e pamonha em volta da pequena casa de madeira onde a Velhinha morava sozinha com seu gato, e não era raro a própria Velhinha sair de casa e oferecer seus bolinhos de polvilho a curiosos que chegavam em ônibus de excursão para serem fotografados com ela e pedirem seu autógrafo.
A Velhinha sempre acompanhou a política e acreditou em todos os governos desde o de Getúlio Vargas, inclusive em todos os colaboradores dos governos militares, ‘até’, como costumavam dizer muitos na época, com espanto, ‘no Delfim Netto!’
O presidente Sarney telefonava frequentemente para Taubaté para saber se a Velhinha, pelo menos, ainda acreditava nele, e Collor foi visitá-la mais de uma vez para pedir que ela não o deixasse só.
As circunstâncias da morte da Velhinha de Taubaté ainda não estão esclarecidas. Sua sobrinha Suzette, que tem uma agência de acompanhantes de congressistas em Brasília, embora a Velhinha acreditasse que ela fazia trabalho social com religiosas, informou que a Velhinha já tivera um pequeno acidente vascular ao saber da compra de votos para a reeleição do Fernando Henrique Cardoso, em quem ela acreditava muito, mas ficara satisfeita com as explicações e se recuperara.
Segundo Suzette, ela estava acompanhando as CPIs, comentara a sinceridade e o espírito público de todos os componentes das comissões, nenhum dos quais estava fazendo política, e de todos os depoentes, e acreditava que como todos estavam dizendo a verdade a crise acabaria logo, mas, ultimamente, começara a dar sinais de desânimo e, para grande surpresa da sobrinha, descrença.
A Velhinha acreditara em Lula desde o começo e até rebatizara o seu gato, que agora se chamava Zé. Acreditava principalmente no Palocci. Ela morreu na frente da televisão, talvez com o choque de alguma notícia. Mas a polícia mandou os restos do chá que a Velhinha estava tomando com bolinhos de polvilho para exame de laboratório. Pode ter sido suicídio.
O ambiente no parque de diversão em torno da casa da Velhinha de Taubaté é de grande consternação”, escreveu Veríssimo para o Estadão em 2005.
A Velhinha foi apresentada como “a última pessoa no Brasil que ainda acreditava no governo”
Reprodução/L&PM
A Velhinha de Taubaté
Reprodução/Eduardo Baptistão
Despedida
Nos últimos anos, Veríssimo enfrentava problemas de saúde: tinha Parkinson, dificuldades cardíacas, colocou marcapasso em 2016 e sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) em 2021, que afetou sua mobilidade e fala.
Autor de mais de 80 obras, ele deixa a esposa, três filhos e dois netos. A despedida ocorrerá no Salão Nobre Julio de Castilhos, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, a partir das 12h deste sábado (30).
Morre o escritor Luis Fernando Verissimo aos 88 anos
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