No Dia da Visibilidade Lésbica, casal compartilha experiência da gestação do primeiro filho: ‘Não somos exceção, somos realidade’


Casal do interior de SP compartilha experiência de gestação do primeiro filho; vídeo
Uma família, no sentido apresentado no dicionário, significa um conjunto de parentes de uma pessoa e também um grupo que vive sob o mesmo teto, como um pai, uma mãe e os filhos. Há três anos, um casal lésbico de Itapetininga (SP) realizou o sonho de formar uma família com a chegada de seu primeiro filho.
Para celebrar o Dia da Visibilidade Lésbica, nesta sexta-feira (29), o g1 conversou com Thais Weiss e Maria Eduarda Barros, ambas de 32 anos, que compartilharam o sonho da gestação e maternidade do primeiro filho, João Guilherme Barros Weiss, de três anos. As duas estão juntas há 12 anos.
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O sonho de ter um filho
O casal se conheceu na escola, quando tinha 12 anos. Thais e Maria Eduarda se tornaram melhores amigas, mas acabaram mudando de escola e se distanciando. O reencontro aconteceu na faculdade, e foi ali onde tudo começou.
Desde o início do relacionamento, Maria Eduarda deixou claro para Thais que tinha o sonho de ser mãe, e, aos poucos, esse se tornou um sonho em comum do casal.
Em 2020, as duas celebraram o casamento e, um tempo depois, começaram o processo para ter o primeiro filho. Para realizar esse sonho, as duas passaram a pesquisar as possibilidades para ter um filho, como adoção, inseminação e fertilização in vitro (FIV).
“Pesquisar foi o que mais fizemos. Estudamos as possibilidades por anos. Quando escolhemos a FIV, seguimos pesquisando artigos, vídeos e relatos de famílias como a nossa. Queremos que outras mulheres lésbicas saibam que, sim, é possível realizar esse sonho”, afirma o casal.
Logo depois, elas escolheram o processo de FIV, que envolve algumas etapas. Primeiro, houve a retirada dos óvulos, que depois foram fertilizados em laboratório com o espermatozoide de um doador anônimo, escolhido pelo casal no banco de doadores. Depois, o embrião formado foi congelado e, após alguns meses, foi transferido para o útero de Maria Eduarda.
Gestação e maternidade
Há três anos, casal de Itapetininga celebrou a chegada do primeiro filho, João Guilherme
Maria Eduarda Barros/Arquivo pessoal
No início, Maria precisou tomar algumas medicações, mas logo a gestação seguiu normalmente, com direito a muitos desejos e enjoos. “A maternidade, para nós, se construiu no dia a dia: na convivência, na dedicação e no amor, que só cresceu com o tempo.”
Ao g1, o casal explicou que a maternidade em um relacionamento lésbico não é diferente: se constrói no cuidado, no amor e na presença. O que muda é a forma como a sociedade enxerga a construção dessa família, e, além do amor, também existem muita resistência e a reafirmação desse cuidado.
“Muitas vezes tentam nos diminuir, duvidam da legitimidade de uma de nós como mãe ou fazem perguntas que casais heterossexuais não ouvem.”
A construção dessa família exigiu da dupla muito planejamento, estudo, pesquisa e, além de tudo, coragem para enfrentar preconceitos e a falta de informação. As duas relatam ter um orgulho muito grande dessa trajetória e reforçam que João é cercado de amor e cuidado. “Essa é a maior realização da nossa vida.”
Ao compartilhar a escolha do processo para engravidar, o casal teve total apoio de suas famílias, que ficaram surpresas e com algumas dúvidas no início, mas logo tudo se transformou em alegria e suporte.
O começo de uma família
Mães de João Guilherme se conheceram na escola e estão juntas há 12 anos
Maria Eduarda Barros/Arquivo pessoal
As duas explicaram que o maior desafio é o sentimento de que precisam sempre “se assumir” nas fichas médicas, nas quais só existem os campos de “pai” e “mãe” e até em perguntas sobre a paternidade do filho. Para o casal, esses momentos mostram como a sociedade ainda precisa avançar em respeito e inclusão.
Para o casal, a falta de informação, interesse e o preconceito fazem com que as pessoas ainda não entendam que duas mulheres podem ser mães. Para elas, é importante incentivar a curiosidade saudável de quem quer entender e aprender, e, para isso acontecer, é necessário ter uma comunicação de grande alcance.
“Sempre querem saber com qual mãe o João é mais apegado. Respondemos que não existe diferença: ele tem duas mães, procura segurança e amor nas duas. A maternidade aqui é compartilhada.”
Para as mães, o papel de genitora é um desafio e, quando são duas, existe a necessidade de reafirmação na legitimidade dessa maternidade.
“A maternidade significa amor em sua forma mais pura, mas também resistência. Resistimos quando mostramos que nosso filho cresce feliz e amado. Resistimos quando lembramos que não somos exceção, somos realidade.”
Ao olhar para a construção dessa família, o casal sente que é a maior conquista de suas vidas, pois há orgulho e felicidade, depois de tanta luta e de conseguir realizar esse sonho.
“O João é o maior sonho realizado das nossas vidas. Ele representa alegria, inspiração e a razão pela qual queremos ser pessoas melhores todos os dias. Ele é a prova viva de que o amor constrói, transforma e supera qualquer barreira”, relatam.
Representatividade nas redes sociais
Há dois meses, Thais e Maria Eduarda decidiram abrir o perfil nas redes sociais e começaram a compartilhar mais sobre sua família. As duas sempre tiveram vontade de produzir conteúdo digital, mas acabavam adiando por conta da rotina.
O motivo para começar? A importância da representatividade. Quando começaram a sonhar com a maternidade, as duas não encontraram histórias de famílias parecidas com as que elas queriam construir. Então, depois de realizar esse objetivo, elas sentiram que podiam ajudar outros casais lésbicos contando sua história.
“Boa parte são mulheres lésbicas que nos procuram para saber mais sobre a dupla maternidade e sobre o nosso processo de FIV. Nosso objetivo é exatamente esse. A representatividade é fundamental, porque, quando uma mulher lésbica vê outra família como a nossa, ela entende que também é possível para ela. Muitas vezes, a gente só precisa de uma referência para acreditar que o sonho é real”, explicam.
Depois da chegada de João, Thais e Maria Eduarda pensam em ter outro filho pelo mesmo método. Ainda não sabem quando isso vai acontecer, mas seguem se organizando para ter o segundo filho.
O Dia da Visibilidade Lésbica, para as duas, representa resistência, visibilidade e orgulho.
“Celebramos o amor que nos une e a coragem de vivermos a nossa verdade, mesmo diante de tantos desafios. Mas também é um lembrete à sociedade de que, sim, nós existimos”, diz.
Casal de Itapetininga (SP) compartilhou o sonho de ser mãe
Maria Eduarda Barros/Arquivo pessoal
*Colaborou sob supervisão de Mariana Bonora
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