‘Vassoura-de-bruxa’: praga ameaça base da alimentação e a fonte de renda de indígenas no Norte do país


Região é lar de inúmeras comunidades indígenas tradicionais
Reprodução Jornal Nacional
O Amapá está em situação de emergência por causa de um fungo. A praga devastou lavouras de mandioca e deixou indígenas sem a base da alimentação.
O ritual para pedir aos espíritos proteção para as roças andava esquecido, mas voltou a fazer parte da rotina do povo Karipuna depois que uma doença chegou por aqui.
“Tem que acreditar porque tem coisa que a gente não vê, que também funciona e resolve”, afirma o cacique Edmilson Oliveira.
A vassoura de bruxa da mandioca atinge mais de 80% das lavouras do Oiapoque.
“Tipo uma pandemia. Veio com o Covid, agora veio o Covid da mandioca”, diz o cacique Martinho Damasceno.
A extensa fronteira do Brasil com a Guiana Francesa foi a porta de entrada do fungo que já se espalhou por oito dos 16 municípios do Amapá. Ele interrompe a passagem da seiva e mata a planta. As folhas ficam com a aparência de vassoura, daí o nome da doença.
Região afetada fica na fronteira com a Guiana Francesa
Reprodução Jornal Nacional
Antes da chegada da vassoura de bruxa por aqui, as comunidades indígenas trabalhavam com 68 tipos de mandioca. A doença foi tão severa que apenas duas resistiram até agora. E também elas já estão sofrendo com agressividade do fungo
“Eu vejo essa situação, né, que tá chegando o fim de uma era. Porque nós éramos fornecedores de farinha para dentro do município do Oiapoque. Hoje é nós que compramos já”, relata o cacique Wagner Kariupuna.
Ela está dizendo que ela está muito preocupada, porque não tem sobrevive. Porque não tem muito que tira sustento. É uma tristeza”, traduz o cacique Gilberto Iaparrá sobre a fala de uma indígena da região.
A mandioca é a base da alimentação e fonte de renda para comunidades inteiras, que hoje dependem do auxílio do governo para comer.
“Aqui para nós, a gente não tinha essa necessidade porque a mandioca ela supria nossas necessidades”, relata o cacique Edmilson Oliveira.
Pesquisadores do Brasil e de outras partes do mundo trabalham para achar uma saída. Mas hoje há mais perguntas do que de respostas.
Agrônomo Embrapa, Saulo Oliveira: “Nós não temos nenhuma ferramenta concreta para o enfrentamento dessa doença, ainda”.
“Essa é a doença mais preocupante que eu já vi nos meus anos todos de estudo. O que se vê no campo é muito dramático”, conta Stephan Winter, agrônomo do Instituto DSMZ.
Repórter: “A vassoura de bruxa da mandioca hoje aqui no Amapá é uma doença sem controle?”
Secretário-adjunto do Governo do AP, Jorge Rafael Almeira: “Sim. Se espalhando diariamente. Pelo ar, pelas vestes, pelas ferramentas dos agricultores. Hoje a realidade é esta.”
Uma realidade que mexeu com a vida de todo mundo. “Era difícil a gente comer arroz, mas o jeito é partir para o arroz”, conta Marinelson dos Santos. Para conter o avanço da doença, o governo instalou barreiras sanitárias e treina indígenas para falar com indígenas.
“A gente tem uma preocupação muito grande hoje na economia do setor, que é essa doença ela sair do estado. E nós temos o estado do Pará aqui ao lado, que é o maior produtor de mandioca do país. É uma corrida contra o tempo”, ressalta a secretária de Desenvolvimento Rural do AP, Beatriz Barros.
A vassoura de bruxa da mandioca também é tema de reportagem especial do Globo Rural, que no domingo começa mais cedo: às 7h30.
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