Mais uma inteligência que se vai e deixa a lacuna, um vão. Leva consigo um naco essencial, um pedaço generoso da nossa capacidade de rir de nós mesmos. Luis Fernando Veríssimo não representava um riso qualquer, mas aquela exultação cúmplice, inteligente, que nasce do espelho que nos vigia e retransmite, algo que esse grande escritor gaúcho e universal nos ofertava em cada crônica. Ler Verissimo era como estar perante um amigo espirituoso: ele dizia o que todos nós sentíamos, sabendo melhor que todos organizar o caudal em palavras precisas e coloridas.Guardo comigo a honra imensa e de extremo valor de ter recebido dele a apresentação do meu livro História da Bahia – Jeito Baiano. Foi um gesto que não se esquece, porque não foi apenas a chancela de um grande escritor para um autor de outra região, outra cultura – e, claro, sem a sua grandeza. Verissimo era – como Jorge Amado e poucos outros – um escritor de coração aberto e que entendia a literatura como partilha. Verissimo me deu esse presente, e levarei para sempre minha gratidão. Coisa eterna.Raros escritores brasileiros viveram a glória — e talvez também seja, antes de mais nada, uma travessura — de ver seus textos multiplicados por mãos alheias. Havia quem escrevesse crônicas e, sem pudor, as assinasse como se fossem de Luis Fernando Verissimo. O fato já seria engraçado por si só, mas ganhou um sabor ainda mais verissimiano quando ele próprio comentou que, das raríssimas crônicas que não eram suas, mas fakes, a única que assinaria embaixo foi “Quase”. Um episódio que revela a grandeza e a generosidade desse cronista raro, capaz de reconhecer beleza mesmo quando não era dele a autoria. Certa feita, teve ainda a “honra” de encontrar a pessoa que escreveu a crônica e assinou em seu nome: a escritora catarinense Sarah Westphal. Glorificado pelo plagiado.Verissimo nasceu em Porto Alegre, em 1936, filho do também colossal escritor Érico Verissimo. Cresceu entre livros, jazz e humor. Trabalhou como tradutor, chargista, jornalista, romancista e, sobretudo, cronista. Foi cronista de jornal no sentido mais pleno da palavra: todos os dias, sem falta, oferecia ao leitor uma lente que transformava o banal em extraordinário. Foi também apaixonado pelo jazz, que tocava no saxofone como se fosse uma extensão natural de sua prosa leve e musical. Numa rara entrevista para a TV Educativa, disse que seu sonho era mesmo ser musicista. E revelou que nunca tirou nenhum diploma, que tudo fazia por intuição — como só cabe aos gênios.Pois ele partiu agora, mas deixa uma herança que nenhum obituário consegue resumir. Mais uma vez perde o Brasil, porque cala-se uma voz que levou gerações a rir com inteligência, a suspeitar das certezas, a desconfiar do poder e a encontrar a palavra certa, notadamente nos tropeços políticos, institucionais, sentimentais ou do registro do cotidiano.A morte de Luis Fernando Verissimo não é o fim de sua presença. Tratemos como uma espécie de silêncio depois da extensa gargalhada. A vida, se não for uma crônica, não vale a pena. A dele valeu — e ele nos compartilhou uma imensa fatia. Vamos à crônica. *Escritor e jornalista
Veríssimo: a crônica do silêncio depois do riso
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